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Cabala e o Ocultismo
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Enquanto Gebelin e Etteilla procuravam zelosamente provar a origem egípcia das
cartas do Tarô, Eliphas Levi acreditava que elas fossem um alfabeto sagrado e universal,
presente nas culturas grega, egípcia e hebraica. Eliphas Levi, pseudônimo do padre
Alfonsé Louis Constant, interessou-se pelo Tarô em l856 e associou os Arcanos Maiores
às 22 letras do alfabeto hebraico. Além disso, Levi associou também os quatro naipes
aos quatro mundos cabalísticos, relacionando as suas dezesseis cartas de figura ao
Tetragrama Sagrado - o 'IHVH'- e as suas 40 cartas numeradas às 10 Sephiroth de Deus,
expressos na Árvore da Vida.
As dez Sephiroth - plural de Sephirah - são esferas de energia em que a
manifestação se desenvolve. Cada Sephirath está contida na anterior e contém, em si, a
possibilidade da próxima Sephirath. Assim, todo universo repousa em latência em Kether,
e dentro dele emana outro círculo, Chokmah, que apesar de contido no primeiro, se
opõe a ele, gerando um terceiro, Binah, que está contido nos dois anteriores. Temos,
portanto, uma série de círculos concêntricos, uns dentro dos outros, mantendo uma
relação de polaridade em função à esfera anterior que o engloba e em função à que
contém em seguida.
A Árvore da Vida
Kether - A Coroa, onde o Incognicível se manifesta como
uma luz extática e apolar, a chama eterna da vida, o centro de todos os círculos. O
ponto.
Chokmah - A Sabedoria, corresponde à luz que entra em
movimento e se torna uma força cinética. É representado geometricamente pela reta ou
pelo círculo.
Binah - A Inteligência, onde a força encontra
resistência ao seu movimento e gera a forma, representada pelo triângulo ou pelo prisma.
Cheseed - A Bondade, esfera onde, equilibrando as
restrições impostas pela forma, a manifestação se realiza através da misericórdia
divina. Essa esfera é simbolizada pelos deuses jupiterianos, como Zeus e Xangô.
Geburah - A Severidade, esfera onde a força, seja física
ou moral, se manifesta com energia e impetuosidade. É simbolizado pela Espada e pelos
deuses guerreiros, como Ares e Ogum.
Tiphareh - A Beleza, esfera que harmoniza a contradição
ética entre a severidade e a clemência. Ela é geralmente representada pelos deuses
solares e redentores, que se sacrificam em benefício ao Todo.
Netzach - A Eternidade, esfera que representa os
sentimentos e os instintos, o fogo sexual, a segunda luz, o planeta Vênus e,
microcosmicamente, o corpo astral, reflexo do mundo da criação.
Hod - A Reverberação, esfera que representa o pensamento
consciente e a mente concreta, o planeta mercúrio, e é um reflexo microcósmico do mundo
da formação.
Yesod - O Fundamento, esfera que representa a Lua e a
essência da vida orgânica, o duplo-etéreo, o reflexo do mundo arquetípico.
Malkuth - O Reino, esfera que representa a essência
inorgânica da materialidade, a imagem sensorial da realidade, o planeta Terra, o corpo
físico concebido dentro do mundo material.
Enquanto as três primeiras Sephiroth - Kether, Chokmah e Binah - formam um conjunto
denominado macroprosopos, formada pelas Três Causas Primárias; as outras sete Sephiroth,
por sua vez, formam o microprosopos e expressam as Sete Causas Secundárias. Imaginemos
que desejamos fazer um bolo. Este motivo, quando vem à mente, eqüivale à primeira
tríade, onde Kether representa o desejo, Chokmah, à idéia, e Binah, a sua imagem
formal. Porém, o bolo só sairá da imaginação para a realidade se cruzar o abismo,
chegando ao sétimo nível de materialização: Cheseed corresponderá à escolha dos
ingredientes; Geburah, ao esforço necessário à preparação da massa; Tiphareh, ao
equilíbrio entre a quantidade dos ingredientes e sua correta preparação; Netzach, ao
toque artístico necessário e à intuição; Hod, às instruções técnicas da receita;
Yesod, ao cozimento no forno; e, finalmente, Malkuth, à forma final do bolo, à sua
materialidade. Os cabalistas analisavam todos os fenômenos à luz destes critérios,
reduzindo-os sempre aos mesmos elementos, as esferas da manifestação.
Além destes processos descendentes e materializantes que baixam da luz ketheriana
para concretude de Malkuth, a que se chama criativos; existem os processos evolutivos, que
partem da matéria em busca de uma realidade mais sutil. A serpente kundalínica da
Árvore da Vida representa este duplo circuito dos processos criativos e evolutivos. As
Sephiroth ou esferas de manifestação funcionam como 'transistores' deste circuito,
unidades que recebem e emitem energia transformando suas características. Outras versões
associam a Árvore à imagem do Adão Kadmo, onde cada Sephiroth corresponde a uma parte
do corpo, estabelecendo uma relação entre o micro e o macrocosmo. A tríade formada por
Kether, Chokmah e Binah, por exemplo, corresponde à cabeça. Em seguida, formando um
triângulo invertido, Geburah, Cheseed e Tiphareh representam os dois braços e o plexo
solar. As pernas, o sexo e o centro de gravidade, por sua vez, são associados as
Sephiroth Netzach, Hod, Yesod e Malkuth.
A Árvore da Vida é um diagrama da estrutura do universo, um eixo sobre o qual se
organizam os diversos níveis da manifestação. A árvore, no entanto, não forma um
sistema fechado; ela é um método ou uma chave analógica para decifrar outros sistemas
simbólicos. Suas correspondências, no entanto, além de infinitas, muitas vezes são
contraditórias, uma vez que permite diferentes associações e analogias incompatíveis
entre si, mas 'verdadeiras' do ponto de vista psicológico. O principal benefício da
proposta do padre-ocultista foi a instituição da árvore como um 'centro', um eixo
vertical de associações de todos os arquétipos. Segundo esta lógica, as cartas-letras
correspondem aos 22 caminhos que interligam as dez esferas de manifestação da Árvore,
representando todas as experiências subjetivas possíveis. Além disso, Levi discutiu
exaustivamente o símbolo quaternário e sua relação com a estrutura decimal. Para ele,
as quarenta cartas numeradas representam a involução do Universo como um processo de
quatro fases e dez agentes. O Universo está se desenvolvendo em quatro 'níveis de
densidade' da manifestação, em quatro estágios progressivos de materialização do
sutil no denso. Em cada nível, há dez 'degraus' ou agentes. Assim, além da árvore
principal dos 22 caminhos, Levi propôs a existência de mais quatro: a árvore das dez
emanações arquetípicas, a árvore dos dez arcanjos, a árvore das dez falanges
angélicas e a árvore dos dez astros do sistema solar.
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O pensamento ocultista
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No entanto, cabe observar que, embora desde Levi os ocultistas nunca mais tenham
deixado de admitir a interdependência entre o Tarô e a Cabala, a verdade é que, além
de um não se encaixar perfeitamente ao outro, não existem quaisquer provas históricas
desta ligação. O fato é que não existe um consenso sobre a correspondência entre as
duas linguagens simbólicas e que, adicionando-se as associações com a astrologia, a
discussão dos ocultistas se transformou em uma verdadeira babel de imagens sem que nenhum
autor tenha conseguido o 'feito' de estabelecer um sistema de analogia perfeito.
Pode-se distinguir duas grandes correntes do ocultismo que defendem associações
diferentes entre o Tarô, a Cabala e a Astrologia: os seguidores de Eliphas Levi, também
conhecidos como ocultistas continentais, e os adeptos do sistema desenvolvido pela ordem
Golden Dawn e aperfeiçoado por Aleister Crowley, também chamados de ocultistas
anglo-saxãos.
O primeiro grupo - que conta com os nomes de Oswald Wirth, Stanislau Guaita, Gerald
Encausse (Papus) e G. O. Mebes - se caracteriza pela associação da carta do Louco à
letra hebraica Shin e ao trigésimo primeiro caminho da Árvore da Vida. O pensamento
deste grupo foi hegemônico até o final do século passado. Neste século, no entanto, o
Tarô se desenvolveu e popularizou bastante devido ao surgimento da ordem ocultista Golden
Dawn, fundada por McGregor Master e W. Wynn Westcott. A principal característica deste
grupo é a associação do Arcano do Louco à letra Aleph e ao décimo primeiro caminho da
árvore. Seguindo este princípio, Sir Charles Waite e Aleister Crowley, os dois maiores
expoentes da ordem, foram responsáveis por belos tarôs e por uma vasta obra teórica
(5).
Crowley, talvez o mais polêmico ocultista de todos os tempos, ampliou bastante as
correspondências simbólicas do Tarô e da Cabala com outros sistemas como a Astrologia,
o I Ching, perfumes, cores, objetos mágicos, lançando as bases da feitiçaria moderna.
Mesmo discordando de seus rituais e do seu comportamento excêntrico e macabro, a maioria
dos pensadores que sucederam Crowley adotaram seus sistema de correspondência, expressas
no seu livro '777'. Este grupo de autores é predominante atualmente e conta com nomes
como os Dion Fortune, Allan Watts, Gareth Knigth, Israel Regardie e Robert Wang, entre
outros. Além desses dois grandes grupos de ocultistas, também existem autores
independentes que defendem seus próprios sistemas de associação, como Paul Foster Case
e o misterioso 'Zain' do Templo da Luz, que adota o critério cromático em seu sistema.
As hipóteses sobre a origem da Cabala adotadas pelos ocultistas não são menos
delirantes que as do Tarô. Para uns, ela foi ensinada pelos anjos aos homens para que
eles conseguissem voltar ao Paraíso Primordial. Para outros, ela foi recebida por Set, o
terceiro filho de Eva, ou Enoch, Abraaão e Melkisedk. Há também versões de que ela
diretamente ditada por Jeová a Moisés, durante sua permanência, por quarenta dias, no
monte Sinai.
Do ponto de vista historiográfico, no entanto, sabemos que a Cabala, como tradição oral
do misticismo hebraico, data da época do segundo cativeiro babilônico, sendo uma
espécie de adaptação do simbolismo astrológico dos caldeus ao monoteísmo judaico.
Podemos inclusive desconfiar de que a Árvore da Vida é uma interpretação axial do
símbolo do Eneagrama mesopotânico. Por muitos séculos, a Cabala foi transmitida
oralmente como um tipo de exegese mística do Torah até que, por volta do ano 100 d.C.,
surgiram o Sepher Yetzirah e o Zohar. Desde então, a Cabala teve vários ciclos distintos
dentro da tradição judaica, com características bastantes diferentes (o ciclo mágico
da Floresta Negra, o ciclo filosófico-especulativo da Espanha no Século XII, o ciclo
monástico de Safed dirigido por Isaac Luria), mas só se popularizou quando foi
apropriada e deformada pelo pensamento ocultista.
Diante desta popularização distorcida promovida pelos movimentos ocultistas, nada
mais normal do que os estudiosos da Cabala ligados ao judaísmo protestassem com
veemência. Para a maior autoridade historiagráfica da Cabala Hebraica neste século,
Gershom Scholem, por exemplo:
(...) "as atividades dos ocultistas franceses e ingleses foram inúteis e serviram
apenas para gerar uma grande confusão entre os ensinamentos da Cabala e suas próprias
invenções, tais como a suposta origem cabalística das cartas do Tarô". (6)
Tentando salvaguardar a associação das duas linguagens simbólicas, Robert Wang tentou
responder às objeções de Scholem, afirmando que há uma Cabala Hebraic.
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